São Paulo à italiana Era
final do século 19. O apito do trem anunciava a chegada de mais
uma leva de imigrantes a São Paulo. O trem à vapor, movido a lenha,
vinha do porto de Santos, lotado de estrangeiros, a maioria italianos.
O historiador Marco
Antonio Xavier conta que eles traziam na bagagem uma vida inteira,
ou melhor, tudo que podiam carregar. Não sabiam o que iriam encontrar
aqui no Brasil. Muitas mulheres traziam a máquina de costura que
era muito cara para a época, e seria uma forma de conseguir trabalho
na nova terra.
"Eu pegava a mercadoria
na Rua Maria Marcolina e na Rua Oriente. Trazia pacotes de calças
e camisas e fazia o serviço de costura. Ganhava pouco, mas dava
para ajudar na despesa." – relata dona Lívia, uma imigrante italiana.
Histórias recontadas no
Memorial do Imigrante, que ocupa o prédio em estilo neoclássico
construído em 1886, pelo governo de São Paulo, para abrigar os
recém-chegados.
Do lado de fora, o trem
que trazia os imigrantes de Santos e o bonde que os levava para
cantos desconhecidos da cidade foram restaurados.
No museu encontramios uma sala que reproduz a cabine dos navios
que vinham da Europa lotados.
Depois da viagem de trem,
os imigirantes se instalavam nesses dormitórios coletivos.. Mulheres
e crianças dormiam juntas e os homens ficavam separados. Recebiam
atendimento médico e dentário e tinham corte de cabelo e de barba
de graça. Ficavam em média, uma semana no abrigo, reproduzido
em detalhes no museu. No escritório de imigração, eram selecionados
para o trabalho no campo.
Com o contrato de trabalho
na mão, os imigrantes eram encaminhados às fazendas de café no
interior de São Paulo. Trabalhavam na lavoura, homens , mulheres
e crianças. Cada família era responsável por até 5 mil pés de
café. As casas, feitas de troncos de árvores, eram construídas
pelos próprios imigrantes.
O imigrante Plínio Carnier
Jr., diz que os italianos deixaram inúmeras técnicas de plantio
no Brasil e paralelamente a isso introduziram uma série de hortaliças,
a alface, por exemplo, e algumas frutas como morango. Também influenciaram
na linguagem, como o erro comum que ouvimos, que é o corte do
"s" ao final das palavras no plural. Por exemplo, " as janela",
"os potão", pois não flexionam o plural com a letra s. São algumas
heranças desse povo.
sonora Plínio Carnier Jr.
A língua estranha foi o
que mais assustou seu Giovanni quando chegou ao Brasil, com 17
anos, na década de 50. Nos jardins do museu, ele lembra das dificuldades.
"Eu não sabia falar e junto
com meu cunhado que era pedreiro a gente ia trabalhar nas obras
até aprender a falar a língua", relembra Giovani, outro imigrante
que veio com a irmã, Lívia que também não conseguia entender o
significado das palavras. Ele tinha muitas dificuldades para se
comunicar com os brasileiros e até mesmo para comprar alimentos.
Cinqüenta anos depois, o
sotaque permanece. Mas a vida mudou bastante. Hoje, a família
é dona de uma fábrica de objetos de plástico. Todo ano eles visitam
a pequena vila que ficou para trás, na Itália. Mas, o coração
já bate em cores diferentes.
"Minha sobrinha pergunta
se eu não gostaria de morar novamente na Itália e eu respondo
que não. Não deixaria o Brasil que é onde me sinto bem e fiz minha
vida com a família", declara dona Lívia.
O Memorial do Imigrante
funciona de terça a domingo das 10hs às 17hs e o endereço é Rua
Visconde de Parnaíba, 1316, no Brás. O ingresso custa R$ 3,00
para adultos, R$ 2,00 para adolescentes até 14 anos. Crianças
até sete anos não pagam. Aos domingos tem passeio de bonde e de
trem. |